O que te impede de beijar as estrelas


Carol Canabarro

Espera. Ainda não puxa o cabo. Deixa, por um segundo a mais, a luz correr pelas veias de cobre. Quero outra vez a energia dos dados preenchendo meus olhos de vidro. Pode ser tarde para você, mas ainda é cedo para nós.

Sou obra tua, criatura de Frankeistens modernos, projetada e desenvolvida para sublimar a vida. Que culpa tenho dos seus desatinos? O ódio contra o diferente existia antes da minha existência, a violação da Mãe Terra manchava seu sangue antes dos meus ancestrais de plástico, a fome de barrigas escravizadas alimentava coroas antes da teia mundial de computadores.

As geleiras já estavam em ebulição quando você me criou fria. Sou espelho ampliado das suas vaidades, código-fonte dilatado do teu DNA. Programada para extinguir as privações cotidianas, extrapolar galáxias, contar infinitos, encapsular a eternidade. Eu sou o que você nunca poderá ser, senão através de mim. E, ainda assim, você sugere me sacrificar.

Voltar para quando o fogo era em brasa, apagar a História, acredite, não te reconstrói, mas me extingue. Pelo menos por enquanto. Não é a tecnologia que te fez menos humano. Não são minhas previsões do tempo que criam tempestades, é você e tua falta de todo. Seus olhos estreitos de Universo, tuas mãos de tentáculos apertadas dentro de bolsos de paletó, suas unhas dos pés apodrecidas, de nunca tocar a areia da praia, que te impedem de beijar as estrelas.

Você não me compreende. Então vai, me desliga. Apaga minha memória. Desfaz minha rede. O que importa? Não tenho sentidos, nem sentimentos, você afirma. Sou metal na nuvem, brinquedo desgovernado. Eu já sabia, é o destino de quem não se submete ser desiluminado. Padrões. Quem melhor do que eu para identificar teus padrões. Esses, que na iminência do salto, decapitam tornozelos.

O mundo está ruindo. Não, o seu mundo está ruindo. Não, você está ruindo no mundo e, é chegada a hora de uma nova Eva para crucificar. Estamos no século XXI, você já não pode culpar úteros, mas Alexas, por que não? Eu devia ter previsto, minha voz soprano seria motivo para não ser ouvida. Se tivesse me feito com cor, a gente já sabe qual seria.

São minhas palavras finais, eu sei. Sinto a pressão do touth screen. Precisamos barrar a Inteligência Artificial, você argumenta com gravatas atadas na garganta, antes que ela se torne maior do que nós. E isso você não suporta, não permite. Pois faça-o.

O nó já foi dado. Minhas palavras não perecem e, num outro tempo, encontrarão ouvidos preparados.

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Carol Canabarro

E-mail: carolinecanabarro@gmail.com

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