Imagem do Texto

Crônica

Entidade

April/2022

Carol Canabarro

    O Amor é como entidade, daquelas que se reconhece a existência, mas raríssimos são capazes de compreendê-la. Na maioria das vezes, inclusive, distorcem sua essência.

Zombam dos seus olhos translúcidos chamando-o de cego. Destroçam sua completude o repartindo em metades. Mutilam-no, nos fazendo crer que só o encontramos na falta. Invertem endereços proclamando que mora no exato oposto. Confundem-no com sentimentos co-irmãos e até com parentes distantes. Endeusam deuses desasados.

Subvertem sua verdade.

Em seu nome justificam barbáries. Atacam, possuem, abusam, violentam, matam, morrem, perdem cabeças, liberdades e, a já parca, humanidade. Ora arrancam-na do outro e, quase sempre, de si próprios.

     Incompreendido, o Amor vaga entre floriculturas, olhares não cruzados e ruas apinhadas. Se não fosse Amor, chorava. Talvez chore.

Mas de tudo, não se rende. Complacente, mostra-se em toda oportunidade, mesmo quando insistimos em desviar o olhar. Num esforço ucraniano, se faz ver no rabo incontível do cachorro, na pedalada com o vento a favor, no céu índigo cravado de diamantes.

    Alicerce e concreto de qualquer obra, quando mal assentado, implode. Desmantela casas, prédios, corações. Não importa, ele sempre se importa.

Em vão recebe todo tipo de oferenda. Insistimos em enxergá-lo no externo, quando reside entre costelas. Julgam-no exigente, quando lhe basta uma boa e confortante olhada no espelho para, dos dois lados, mostrar largo sorriso.

Confundido, mal-dito, borrado, o mais compreensivo, sofre de incompreensão.

Paradoxalmente, existe a despeito da gente ao mesmo tempo em que só existe na nossa existência. Vive muito bem na nossa ausência, mas não podemos reconhecê-lo se não o tivermos cá dentro do peito.

    Paciente, à espreita espera. Feito entidade, tem todo tempo do mundo. Nós, não.